Identidade e contexto: como Felipão construiu o Palmeiras campeão brasileiro

Uso do grupo e sistema de jogo mais próximo da cultura dos jogadores foram méritos do trabalho que fez o Palmeiras campeão brasileiroPor Leonardo Miranda

Identidade e contexto: como Felipão construiu o Palmeiras campeão brasileiro

André Durão

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A primeira reflexão no decacampeonato do Palmeiras é: como um trabalho de 112 dias faz um time ir de sétimo colocado a campeão brasileiro? A experiência de Felipão responde. Ao entender o momento e dar aos jogadores simplicidade de ideias e proteção, o lendário treinador também mostra um pouco da realidade do futebol brasileiro. Porque qualquer clube, por mais profissional que seja, convive com uma pressão fora do normal e saudável por títulos.

Ideias de Roger Machado exigiam um tempo que o Palmeiras não tem

Quando o investimento é alto e os jogadores são de renome, a pressão redobra e qualquer coisa que não seja a taça não serve. Roger Machado conviveu com essa ansiedade ao construir um time organizado, mas irregular. Seu Palmeiras começava num 4-2-3-1 formado por Dudu, Moisés e Scarpa na linha de meias. A intenção era trabalhar mais a bola e avançar as linhas. Dudu e Scarpa ficavam fixos pelo lado, enquanto Moisés e Bruno Henrique combinavam passes em profundidade a Borja.

Com Roger Machado, laterais por dentro e time mais posicional — Foto: Leonardo Miranda

Com Roger Machado, laterais por dentro e time mais posicional — Foto: Leonardo Miranda

Acontece que essas ideias eram complexas demais para o momento e também para o peso de ter perdido o Paulista para o principal rival, em casa. O Verdão de Roger era um time “para o ano que vem”. De 15, ganhou apenas 5 jogos e foi demitido num momento onde o clube não iria arriscar colocar a perder a temporada. Porque não importava se o time era para o futuro ou estava sendo construído: a necessidade era ganhar agora.

Santos x Palmeiras Roger Machado — Foto: Marcos Ribolli

Santos x Palmeiras Roger Machado — Foto: Marcos Ribolli

Felipão entende o momento e arranca

A chegada de Felipão não foi unânime, mas atendia ao diagnóstico deixado por Roger: era preciso simplicidade, fácil trato com os atletas e resultados. Sua primeira ação foi simplificar a forma com que o Palmeiras saía jogando: ao invés de muitos toques, passes simples e diretos. Ao invés de jogadas combinadas, bolas longas para Borja. Na primeira versão, um 4-1-4-1 com Moisés como “dublê de centroavante” e 6 jogos invictos contra adversários da parte de baixo.

As ligações diretas foram a principal forma de atacar no Palmeiras — Foto: Leonardo Miranda

As ligações diretas foram a principal forma de atacar no Palmeiras — Foto: Leonardo Miranda

Gosto de pedir para o meu time jogar bola, mas não para dar a bola para o adversário. Errar não é dar a bola. Tem momentos em que você precisa ter postura tática mais defensiva porque adversário melhorou ou causou problema. Essas palavras são pela Copa do Mundo, diziam que a França dava a bola para o adversário. Mas ninguém dá a bola para o adversário, o adversário que tem qualidade.

O jogo simples de Felipão também está relacionado à necessidade do jogador brasileiro de se sentir livre dentro de campo. Por isso uma ideia com posicionamentos mais definidos no ataque, como a de Roger, nem sempre vai bem. Um exemplo é Dudu: ele virou o craque do campeonato porque tinha liberdade de receber a bola e fazer o movimento que queria. Deyverson também: precisou sair menos da área e tocar menos a bola. Esse tipo de futebol é mais intuitivo e um tanto mais “caótico”, e é preciso uma sinergia muito grande entre treinador e jogador para dar certo como no Palmeiras.

Deyverson constribui com mobilidade e bolas longas — Foto: Leonardo Miranda

Deyverson constribui com mobilidade e bolas longas — Foto: Leonardo Miranda

Sai a defesa por zona, entram os encaixes e a cobertura

Outra mudança drástica de Felipão no Palmeiras foi mudar sensivelmente o modo de marcar. E aí vem o conhecimento do atleta brasileiro, que gosta de ações mais individuais e um jogo mais físico ao invés de trabalhar o posicionamento. Scolari e Turra agiram ao tornar os encaixes – quando um jogador sai de sua posição de origem e vai marcar o adversário – mais definidas e “longas”, muitas vezes com os zagueiros indo até o meio-campo. Quando isso acontecia, Turra ordenava que a cobertura fosse imediata. Assim, se alguém era driblado, tinha alguém pra ir na bola.

Felipe Melo na cobertura — Foto: Leonardo Miranda
Felipe Melo na cobertura — Foto: Leonardo Miranda

Felipe Melo na cobertura — Foto: Leonardo Miranda

Temos trabalhado principalmente o setor de cobertura. Com boa cobertura, pode ter uma falha e o companheiro fica pronto para ajudar. O Turra faz muito bem esse trabalho. Felipe Melo está jogando numa forma de proteção em que a defesa não se expõe. A questão é posicionamento e entendimento com os jogadores: se não temos velocidade, temos que ter posicionamento.

A busca por proteção e segurança é uma constante com Felipão. Não cobrem dele um time vistoso, bonito, lindo de ver: ele é um treinador essencialmente de resultados, e pensa seu time assim. O Palmeiras que arrancou após vencer o Corinthians, assumir a liderança contra o Cruzeiro e quebrar um tabu de 16 anos no Morumbi era uma espécie de “5-5”: laterais e zagueiros fechavam junto a um volante e o resto se mandava ao ataque. Criava-se um latifúndio no meio, solucionado com bolas longas e diretas a Borja ou Deyverson.

Muito da segurança defensiva do Palmeiras de Felipão vem da saída de bola repartida: 5 espetam no ataque e a ideia é construir o mais rápido e com menos deslocamentos possíveis, geralmente com só Lucas Lima buscando. Assim, 5 ficam sempre na defesa. < href=”https://t.co/TicdiT1tVk” url=”https://t.co/TicdiT1tVk”>pic.twitter.com/TicdiT1tVk>— September 9, 2018

Não é feio ou bonito, mas sim uma questão de competir

A partir do momento em que a liderança virou realidade, o Palmeiras ficou visado. Adversários buscaram compreender com mais afinco e neutralizar o jogo direto no centroavante e o forte contra-ataque. Felipão começou a rodar mais o elenco, muito porque a simplicidade do jogo que construiu permitia a quem estava no banco entender melhor e cortar etapas dentro de campo. Segundo, por privilegiar fisicamente o segundo turno que costuma ser mais duro e intenso.

Nós temos de trabalhar pelo Palmeiras e correr com inteligência porque senão teremos um desgaste muito grande contra uma equipe como essa. Todos têm corrido e se dedicado. Eu coloco a equipe A ou B e é a mesma coisa.

Felipão - Palmeiras x América-MG — Foto: Marcos Ribolli

Felipão – Palmeiras x América-MG — Foto: Marcos Ribolli

O Palmeiras versão liderança é um time ainda mais direto. Coloca menos a bola no chão, tenta poucos passes e não tem vergonha de se resguardar atrás e buscar os contra-ataques ou bolas paradas – as vitórias contra Santos, Paraná e Atlético-MG nasceram assim. Antes de tudo, um time que usa o momento a seu favor e busca outros recursos de jogo que não sejam a bola no chão para vencer uma partida.

Contra-ataque do Palmeiras contra o América-MG — Foto: Leonardo Miranda

Contra-ataque do Palmeiras contra o América-MG — Foto: Leonardo Miranda

Feio ou bonito? Essa questão é antiga. Era um dilema com Cuca, e tantos outros no Brasil. Felipão nunca escondeu o que ele sempre foi em sua vitoriosa carreira: um treinador de resultados. E Scolari pensa, vive e treina para ganhar, não importa como. A bola longa, o jogo de profundidade e poucos passes tem como objetivo conseguir o mais rápido o gol, jogar a pressão para o adversário e buscar contra-ataques. Assim ganhou 2 Libertadores, 2 Brasileirões, 1 Copa do Mundo e tantos outros títulos.

Tínhamos um projeto, um ideal, e estamos chegando. Se não jogamos de forma tão brilhante quanto alguns gostariam, jogamos de forma concreta pára buscar objetivo. Sempre fui de treinador de resultado, nunca me escondi atrás de outra carapuça. Gosto de resultado e jogamos na característica dos jogadores para conseguir. Feio ou bonito, depende de qualquer um.

Felipão Luiz Felipe Scolari Palmeiras x Boca Juniors — Foto: Marcos Ribolli

O Palmeiras campeão em menos de 4 meses e 20 jogos é fruto desse pensamento que atende ao ansioso torcedor e dirigente. Porque nenhum clube ou apaixonado está disposto a perder um estadual para o rival em prol do “bom futebol”. Ou de uma ideia de jogo. Ou para o futuro. O futebol é o momento onde o brasileiro se vê liberto de suas aflições, mas de forma inconsciente, reflete no campo a dureza de uma vida desigual. Por isso gosta tanto dessa batalha, desse jogo testosterona e disputado. Felipão, que nada tem a ver com isso, entende essa realidade e sempre foi um técnico de dar identidade a um time. Não é por acaso que nenhum ganhou tanto como ele – no Palmeiras e no Brasil.

Globo Esporte Globo.com

Denilson Alves

Editor do Portal Nosso Goiás

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