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Carnaval acende alerta de mais riscos para mulheres na folia e em casa

Especialista na defesa do direito da mulher analisa as situações mais frequentes e orienta como as vítimas e outras pessoas devem agir

Com a chegada do feriado prolongado de Carnaval, que, em 2026, vai de 13 a 17 de fevereiro, os riscos para as mulheres ficam mais acentuados. A percepção de alerta já foi apontada, inclusive, por pesquisas como a do Instituto Locomotiva e do QuestionPro Brasil, que revelou que 50% das mulheres já sofreram assédio sexual durante o Carnaval e 73% temem passar por isso.
Para a advogada Ana Carolina Fleury, que atua há mais de dez anos como especialista em defesa dos direitos das mulheres, os dados não surpreendem. “Quando mais de 70% das mulheres têm medo, não se trata de exagero, mas sim de uma experiência coletiva de violências. Os números só confirmam o que as mulheres já sabem há muito tempo: o Carnaval, que deveria ser um espaço de liberdade, folia e festa, ainda é um ambiente de alto risco para todas”, avalia.
Com isso, a também professora de cursos de Lei Maria da Penha e Direitos das Mulheres aponta que observa mudanças no comportamento de mulheres para tentarem se proteger da naturalização da violência sexual em espaços públicos. “Muitas deixam de ir a blocos e de usar determinadas vestimentas, evitam alguns horários, compartilham localização em tempo real e combinam estratégias de segurança”, revela Fleury.


Advogada Ana Carolina Fleury

Fora da folia
O risco também é grande para as mulheres que pretendem passar o Carnaval de outra forma que não seja curtindo a folia, como aponta uma pesquisa de 2025 da Universidade Estadual de Londrina (UEL) em parceria com três instituições federais. O estudo indicou aumento de 67% nos feminicídios no Brasil em finais de semana e feriados, na comparação com dias úteis.
“Esses períodos costumam envolver consumo maior de álcool, menos acesso a serviços públicos e maior controle por parte dos agressores. Além disso, muitas vítimas ficam mais tempo dentro de casa com seus agressores, aumentando o risco”, comenta Ana Carolina Fleury, ao concluir que o feminicídio é o ponto final de uma sequência de violências.

Ajuda de terceiros
Outro problema, desta vez revelado pelo DataSenado e Observatório da Mulher contra a Violência com a 11ª Pesquisa Nacional de Violência Contra a Mulher, é que aproximadamente 40% dos adultos que presenciam agressões a mulheres não ajudam as vítimas. Para a especialista, que é também doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB) e atua no PFS Advogadas, a violência contra a mulher é um problema social e exige responsabilidade coletiva.
“Ajudar começa por não ser conivente, por não fingir que não viu ou ouviu algo. Em locais públicos, isso pode ser feito ao acionar seguranças, chamar a atenção de outras pessoas, colocar-se ao lado da mulher e perguntar se ela está bem. Já no contexto doméstico, é escutar sem julgamento, oferecer apoio, informar sobre a rede de proteção e respeitar o tempo da vítima”, indica a advogada.

O que fazer
Ana Carolina Fleury aponta o caminho às mulheres que passarem por violência. “Em espaços públicos, é importante tentar se afastar do agressor e buscar ajuda. Assim como estupro, importunação e assédio sexual são crimes e devem ser registrados oficialmente. No caso de violência sexual mais grave, é fundamental procurar atendimento médico o quanto antes, mesmo que a mulher ainda não tenha certeza se quer registrar ocorrência na polícia”, orienta.


O registro policial deve ser feito, preferencialmente, na Delegacia da Mulher, mas toda delegacia está apta a registrar. Além disso, ela ressalta a importância de as vítimas procurarem advocacia especializada. A segurança deve ser prioridade também em situações de violência doméstica e a indicação é que as mulheres tenham o telefone da Patrulha Maria da Penha de onde moram. “Muitas cidades têm plantões e abrigos mesmo em feriados. Caso já tenha medida protetiva, o descumprimento deve ser comunicado imediatamente”, destaca.
Seja curtindo a folia ou não, a advogada reforça que o telefone indicado em risco iminente é o 190. O número 180 continua um canal de orientação, acolhimento e encaminhamento à rede de proteção, inclusive no Carnaval. O Ministério das Mulheres lançou, neste ano, a campanha “Se liga ou eu ligo 180”, para enfrentar importunação sexual e violência de gênero. Mesmo exaltando a campanha e leis como a 14.786/2023 (Lei do “Não é Não”), a especialista aponta gargalos, como a falta de capacitação eficaz de agentes para não revitimização e a necessidade de campanhas permanentes e responsabilização efetiva dos agressores. 

Por Ananda Petineli

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